segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Maria do Mar



Maria estava descontente. Ainda que mentalmente, decidira com a mesma certeza que ponteia os lindos panos de cru a ouro e seda, que lhe escreveria.

Iniciaria assim a sua prosa:

A tua última carta falava em costurar uma boa amizade. Mas, a mim parece-me que a linha era demasiado fina, repleta de nós e a peça de roupa ainda por estrear não pode chegar a ter forma de ser vestida.

Os breves cruzamentos desembocaram sempre em lugar incerto, iluminados por candeias de azeite quase engaço. O sabor a mosto travou na minha língua deixando-a à toa entre o doce sublime e o amargo.

A amizade prometida, explicada para que não existissem equívocos, traduziste-a numa linguagem de que desconheço o código em que se expressa.

Entre raparigas e rapazes cresci alegremente em amizades grandes e profundas, de alicerces sólidos. O coração e o sorriso abertos à imensa troca de luz do astro rei que erradiam.

Nada se pedia, nada se esperava. Acontecia, fluiam. Deste modo, as minhas amizades resistiram à passagem do tempo, há falta de tempo, à falta de comunicação que naturalmente por vezes acontecem.

Quanto a ti, Manuel tens sido pedreiro e tecelão…tens depositado os tijolos e os fios de lã iludindo a falta de massa , de teia e trama que os ligue. Pedra, sobre nenhures esperando talvez que os céus construam sozinhos o Palácio nobre desenhado. Deste modo, fiquei sem casa, ou teia construída na ausência do teu abraço, na troca de palavras inconsequentes.

Parece-me que existem folhas soltas de momentos de troca agradável de palavras. Mas, quando dou início a abertura de coração e, repito: sem esperar em troca que o faças, não me parece que te suscite algum interesse. Não está em causa o tempo em que tais manifestações pudessem ocorrer, ou a sua forma, simplesmente me parece que não existem.

Guardo a sete cheves o espaço e o tempo dos outros e o meu. Apenas ocupo aqueles quando me mostram clara e inequívocamente que o posso fazer. Não gosto da sensação, da dúvida, de que possa contigo estar a causar-te algum incómodo com as minhas tentativas de te conhecer.

Se é certo que tenho tentado ocupar algum do teu tempo e espaço, também me parece certo que o faço, porque foi essa a atitude que tiveste para comigo.

Manuel: O amor universal que tenho para com os demais, faz-me transmitir - te toda a energia positiva e o desejo que a tua vida se faça no sentido do crescimento espiritual, do mais. E, ainda que lamentando que o nosso conhecimento no aqui e agora fique por aqui e que o nosso breve encontro no espaço e no tempo, fosse tão breve não me parece que queiras que seja mais do que isso: breve encontro e encontros casuais, com uma expressividade ténue no teu viver.

Não me dou bem com “breves”, não me dou bem com sentimentos ténues. Leva-os para bem longe no teu barco e tece com eles uma melodia que te traga apenas quando quizeres voltar.

Fica em Paz que eu por mim com ela descanso.
 
Maria do Mar.