Aqui nesta existência prática, útil, até parece adaptada, sente-se o chamamento do além, o ir para Deus, para um mundo em que já vivemos e que se pede de novo. De mansinho desce até aqui o éden personificado pela mente, escrita de alguém que se revela sem se mostrar. Alguém que consegue, com Poesia, ver o que por vezes se mascara e torna mais doce a minha existência. Mistério envolvido e que se quer desvendar a pouco e pouco sem pressas ao sabor do vento no trigueiral, embalado pelo sussurro silencioso nas papoilas. Firmamento e chão sem tempo, sem espaço, sem aqui nem agora, o passado, presente da existência.
Do mar de esperanças, tormentos até ao campo e pedras de outras existências de suor, amor, lágrimas e bem aventuranças. Há um contínuo velado que pela fechadura da imaginação se espreita. Como um petiz que em bicos de pés quer alcançar a lua, navega-se em barcos de papel que não se desfazem na espuma do teu olhar.
Olhas-me e vês para além do tempo, como se de outros tempos viesse o olhar da alma que se perde, e se encontra sempre. Não estavas perdido, estiveste sempre ali. Por entre ruas que correm nas artérias vivas, no pulsar de quem não vive distraído. Na imensidão da casa / universo condensado num olhar, pairando bem alto.
Em ciclos rodopia-se, acrescentando sempre, iluminam-nos luzes de espirais que envolvem e fazem dançar.
A vida vai correndo, os dias saltando, no percurso o leito encontra o rio, aqui e acolá pedras que fazem a torrente mais abruptamente chegar à foz. Ali, onde talvez me esperes para me enlaçar na teia do teu abraço. A sombra do arvoredo ou das pedras colocadas a braços pelo lavore assalariado de quem aprendeu a não fazer mais nada. Saudoso Agostinho da Silva. Ali nos Paços da Inquisição, sede de justiça humana a submeter a divina como se deus em forma de devil tivesse enlouquecido.
Quem dera o tempo em que recolhia lenha como quem apanha flores para crepitarem em jarras, aquecer a alma e as mãos enregeladas, de olhos vivos, quase molhados, vidrados, sem ver.
Quantas expectativas se criam e se quer ver onde talvez não haja nada para ver, ou então algo tão diferente. Filmes que se desenham nos cenários e palcos da mente. Quem dera que apenas tivéssemos coração, ou centro do sentir. A mente prega partidas. Não esquecer tal, ajuda-nos a esboçar sorrisos e a não fechar. Permanecer, sorrisos bonitos, abertos. Não deixar fugir.
Escreve ao sabor da pena, sem qualquer fio condutor. Umas vezes o que vai na alma, outras o que a mente quer nos mostrar…e sendo esta tão enganadora…ficamos à sua mercê. Laboremos apenas, sejamos Aqui, nesta existência prática.