quinta-feira, 25 de novembro de 2010

Transformação- António, o vivido

 
A revolta estava lá- bem no fundo gostaria que tudo corresse bem. Anos e anos a esconder, a tentar que não se mostrasse, que uma parte sua fosse ficando fechada no roupeiro. assim tinha sido António, nas suas viagens por África, Américas e Oceania. Ía usando uma roupa que não lhe assentava bem, como se tivesse sido feita para outro corpo e depois corrigida para que não pudesse ser deixada cair. Agora, terminou. Toda a sua figura se revelava, sem pudor, mas também sem o poder que tinha ensaiado nas cortes e perante os chefes de tribo com quem se tinha cruzado. Mas, já não necessitava dele.

Após a revolução interior, nas entranhas das emoções, o luto. Agora vinha ao de cimo a sua autenticidade, bem estar, amor para os demais, olhando-os de frente, olhos nos olhos. O António sempre foi um aventureiro, extrovertido, comunicativo, mas os seus pensamentos e emoções gaurdava-os a sete chaves nos tesouros que encontrara pelo mundo fora. Ele fora garimpeiro, pirata, salteador, enriqueceu e cobriu-se de ouro, mas o seu ouro nunca o pudera revelar. Faltava-lhe algo. Um não sei quê de jeito, que lhe vinha do berço, ou de outros passados mal resolvidos.

De regresso ao País Natal, à gente que nunca fora dele. Ele nunca fora de pertença alguma, fosse porque fosse: convicção, descrença, ou simplesmente porque se procurara lá fora, longe. Sentiu em si o poder interior de Ser quem de facto era: um homem vivido, que passara pela vida como se tivesse querido vivê-la e não conseguisse. Um homem experiente, mas de tenra idade, tão ingénuo como um Ser que pela primeira vez vive.

Era tempo de caminhar. Deste modo, viria o dia em que já não olharia para trás, sem a distãncia devida, colocando tudo no seu devido lugar. Pelo menos, era esta a convicção, a fé que tinha agora.

Com tantas tempestades que enfrentou, salteadores que como ele, combateu, animais ferozes que derrotou, só agora se iria dar a grande mudança, acertar os ponteiros do relógio com o seu tempo, sem limitações, sem medos ou receios. Já nada esperava daquele lado do mundo que nunca soube quem Ele era, nem Ele o conheceu, de facto. Esse tempo, terminou. Tinha fé de que os dias, os meses, os anos nunca se repetem. O que foi já não é e o que é deixa imediatamente de o ser, num ciclo que não tem fim conhecido. Descansar em paz, vivendo outra vida que ainda não foi escrita. António, chegara finalmente a casa.
 

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